CÍRCULO VICIOSO.

Machado de Assis.

 

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

-“Quem me dera que fosse aquela loura estrela,

Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!”

Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

 

- “Pudesse eu copiar o transparente lume,

Que, da grega coluna à gótica janela,

Contemplou,  suspirosa,  a fronte amada e bela!”

Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

 

-”Mísera!  Tivesse eu aquele enorme lume, aquela

Claridade imortal, que toda a luz resume!”

Mas o sol, inclinando a rútila capela:

 

-“Pesa-me esta brilhante auréola de nume...

Enfara-me esta azul e desmedida umbela...

Por que não nasci eu um simples vaga-lume?”

quarta-feira, 8 Março, 2017